
Ele está no cúmplice olhar, no silêncio compartilhado, no falatório caloroso e risonho, no abraço que acompanha um longo suspiro, nas discussões matinais (e acredite, não só nas matinais), no jantar improvisado no sofá, no encontro de pés calçados com meias na beira da cama, na faxina dividida, no preparo em dupla de um prato qualquer – pão com ovo? – na palavra amiga, na palhaçada que você faz para divertir, e também naquela que você faz para irritar. Ele está nas atitudes mais malucas, no fato de te chamarem de louco (a), no sono perdido, no sonho forçado, no gesto mais não pensado, no não julgamento, no perdão, na compreensão e na piscadinha que quer dizer que você entende. Ele está no zelo que conforta, na preocupação singela, num mimo qualquer e na vontade de ser mimado. Ele está no reconhecimento, na admiração, num parabéns sincero, no suor e no choque delícia que dá na pele. Ele está nas palavras quentes e malcriadas ditas bem ao pé do ouvido, no agarrar com força, no aperto que não quer soltar e na mordida bem forte cravada com todos os dentes. Ele está numa mensagem sacana enviada no meio da semana, no rubor da face, no calafrio controlado e principalmente no descontrolado. Ele está na brincadeira que você mais gosta e que fica incrivelmente tão mais divertida a dois, no grito bravo ou choroso, no gesto mais intrínseco que você começa a querer compartilhar, e por aí vai.
O certo, ou quase isso, é que ele simplesmente está onde às vezes nem imaginamos que ele esteja. Sacaninha, né? Pois o romance é assim. Ele não tem regras, mas tem seus ajustes e encaixes. Ele não tem hora pra chegar, mas costumam dizer que ele tem a dura hora de ir embora. Ele não tem idade, mas se tivesse certamente seria muito velho, calejado e experiente. Ele não tem vida, mas com certeza é ETERNO e onipresente; mesmo que algumas pessoas tenham aquele medinho dele. Mas também, quem manda chegar como num sopro longo e intenso esbravejando alto e sonoro um “quié,vai encarar?”. O que eu sei é que há boatos por aí que dizem que quando o romance é do bom, ele não é bobo e nem vem com calma. Ele vem do interior mais longíquo e costuma se alojar em qualquer canto e simplesmente tira as botas velhas, o chapéu maltrapilha e fica. É o que dizem. Juro. Já ouvi.